Relatório final sobre acidente da Voepass pode ser 'marco histórico' para mudanças nas culturas das companhias, dizem especialistas

Tragédia da Voepass: vídeo mostra como foi acidente de avião em Vinhedo O relatório final do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáutic...

Relatório final sobre acidente da Voepass pode ser 'marco histórico' para mudanças nas culturas das companhias, dizem especialistas
Relatório final sobre acidente da Voepass pode ser 'marco histórico' para mudanças nas culturas das companhias, dizem especialistas (Foto: Reprodução)

Tragédia da Voepass: vídeo mostra como foi acidente de avião em Vinhedo O relatório final do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) sobre a queda do avião da Voepass em Vinhedo (SP), que resultou na morte de 62 pessoas em 9 de agosto de 2024, poderá ser um "marco histórico" para mudanças nas culturas das companhias aéreas, segundo especialistas ouvidos pelo g1. Durante coletiva para apresentação do documento nesta quinta-feira (23), o tenente-coronel Paulo Mendes Fróes, investigador da Força Aérea Brasileira (FAB), afirmou que a Voepass tinha uma "cultura de normalização de desvios" em condutas operacionais. Entre as irregularidades encontradas durante as apurações com voos anteriores ao do acidente, foi constatado, por exemplo, que pilotos e mecânicos deixavam de relatar em diários de bordo problemas em aeronaves e que auxiliares de mecânicos atuavam sem supervisão dos mecânicos. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 Campinas no WhatsApp Além disso, o Cenipa levantou que equipes de manutenção tinham o costume de reparar aviões com componentes de outra aeronave também em pane ou até mesmo usar componentes que já estavam com falha. A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) foi apontada como um dos fatores contribuintes do acidente, já que teria falhado na fiscalização dessa cultura organizacional. Em nota, a Voepass afirmou que o acidente foi o episódio mais grave de sua história e destacou que prestou apoio às famílias das vítimas desde o primeiro momento. A companhia também informou que segue colaborando de forma transparente com as investigações — leia a nota na íntegra abaixo. Já a Anac ressaltou que investigações do Cenipa "têm caráter exclusivamente preventivo e não se destinam à atribuição de culpa ou responsabilização, mas à identificação de fatores que contribuíram para o acidente e de recomendações para aprimorar o sistema de segurança operacional da aviação civil". As recomendações deverão ser analisadas em até quatro meses. LEIA TAMBÉM Cenipa aponta 'cultura de normalização de desvios' na Voepass VÍDEO: simulação mostra voo da Voepass da decolagem à queda Cenipa cita conversas pessoais de pilotos e 'esquecimento' do sistema de degelo Relembre queda de avião que matou 62 pessoas em 2024 Anac diz que vai analisar recomendações em até 4 meses Veja como foi divulgação do relatório em tempo real Fabricante francesa altera manual de aeronave após queda em Vinhedo Avião deu 5 alertas antes de cair: veja os momentos finais do voo da Voepass 'Não reportar': áudio enviado a piloto mostra rotina para não relatar panes na Voepass Mudanças na fiscalização Cenipa divulga resultado final da investigação sobre acidente com avião da Voepass em Vinhedo Gabriella Ramos/g1 Segundo o coronel aviador Silvio Monteiro Júnior, especialista em segurança de voo e resgate aéreo, o relatório elaborado pelo Cenipa "superou as expectativas" e foi "um dos mais bem elaborados" que ele já viu. Silvio afirmou que o documento tem dois pontos centrais: a exposição da cultura organizacional da Voepass, chamada pelo especialista de "absurdo" e que "atenta contra qualquer parâmetro de segurança de voo", e as falhas de fiscalização da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). No caso da Anac, ele acredita que as recomendações para melhorias nas inspeções das companhias poderão levar a um aumento na qualidade das operações das companhias, já que elas deverão ser mais exigidas para atender aos requisitos de segurança. "A gente está vivendo a história nesse momento, né? Daqui a alguns anos, vamos olhar para trás e ver que o relatório vai ter sido um marco na história da aviação brasileira, no sentido de ter alterado alguns procedimentos. Entre eles, essa questão da cultura organizacional", comentou. O coronel ainda explicou que a Anac pode acatar as recomendações de diversas formas, como fazer um plano de mitigação ou até emitir novas normas. "O que eu considero muito importante para a aviação nesse momento é que realmente estamos no caminho de tornar as empresas ou cobrar das empresas aéreas uma relação diferente, uma cultura organizacional cada vez melhor", completou. Dificuldades financeiras Imagem de arquivo de aviões da Voepass Reprodução/EPTV A opinião é compartilhada por um treinador de pilotos ouvido pelo g1, que não quis se identificar. Ele contou que já era de conhecimento no meio da aviação que a Voepass — assim como outras companhias — passava por dificuldades financeiras no momento do acidente. Essa situação, de acordo com o treinador, é um retrato de custos operacionais elevados das companhias aéreas, que estariam trabalhando de forma deficitária para um público ainda pequeno que utiliza o transporte aéreo — em comparação com os outros meios. Aliado a esse fator, a Anac, na avaliação do especialista, não tem recebido incentivo e investimento o suficiente para expandir o trabalho de fiscalização, o que faz com que as exigências sejam flexíveis. "O brasileiro detesta seguir regras. Na aviação, as regras têm de ser muito certinhas. E aí, obviamente, se você tem um ambiente que propicia esse conforto de você não seguir as regras, não ser penalizado, acaba acontecendo isso", ponderou. Como o Cenipa citou a fiscalização da Anac entre os fatores contribuintes para o acidente aéreo em Vinhedo, o treinador também acredita que o relatório será um "divisor de águas" na aviação, inclusive fazendo com que algumas companhias deixem de existir. "Vai subir o sarrafo e, obviamente, a gente vai ver o quê? Uma série de empresas que não vão sobreviver. O que é melhor: uma empresa sobreviver de uma forma errada ou ela deixar de existir por não oferecer um serviço adequado? (...) A espinha dorsal da coisa é funcionar direito. Então o relatório vai chacoalhar isso", refletiu. Ele ainda lembrou que a cultura organizacional da companhia passa pela fiscalização, porque se a empresa tem uma cultura de desvios muito forte a tendência é que isso influencie nas decisões. "Por exemplo, no caso da Voepass, o piloto poderia ter recusado aquele avião? Legalmente, sim. Mas na prática ele estaria sem emprego", disse. Relatório sem surpresas e futuro Simulação voo ATR da Voepass que caiu em Vinhedo foi apresentada durante relatório final do Cenipa Reprodução/Cenipa Para o professor do departamento de engenharia aeronáutica da Universidade de São Paulo (USP), James Waterhouse, o relatório não trouxe surpresas em relação à conduta da Voepass. "A Voepass mostrava, para quem é da aviação, exatamente isso. Isso já era perceptível por meio de vários pequenos indícios. Então, para o meio aeronáutico, não foi uma grande novidade. Dificuldades econômicas, avião parado, tira a peça de avião e coloca em outro", apontou. O especialista avaliou o documento como "bastante preciso e muito bem feito" e destacou vários tópicos que seriam centrais para entender o acidente: Segundo James, houve "negligência generalizada" da empresa, da equipe de manutenção aos pilotos; O professor também citou a "cultura de transgressão às regras" e lembrou que as regras da aviação foram elaboradas por cerca de 120 anos. "É um grande desperdício e desprezo também com a vida humana", ponderou; A atuação da Anac na fiscalização; O desrespeito às margens de velocidade que poderiam evitar o acidente quando os pilotos foram alertados pela aeronave sobre o acúmulo de gelo; Falta de treinamento na interpretação de sinais, como alertas e contextos do voo. No entanto, ainda de acordo com James, as falhas da Anac na fiscalização trazem uma "lição" e um questionamento sobre o que precisa ser feito a partir da divulgação do relatório. "Quais companhias estão passando por uma situação similar ou podem estar passando por parte desses problemas que não estão sendo devidamente identificados hoje? Será que existe, em alguma das empresas hoje, cultura desse tipo ou algum problema desse tipo e que pode eventualmente resultar em um outro acidente?", questionou. O professor disse que a Anac tem os dados econômicos de todas as companhias aéreas. Portanto, ele sugeriu que a agência aumente a frequência de fiscalização naquelas que estiverem com dificuldades econômicas. "A primeira coisa que, quando o dinheiro acaba, o pessoal contingencia são os gastos com segurança", disparou. O relatório final reúne as conclusões da investigação técnica conduzida pela Força Aérea Brasileira (FAB) para identificar os fatores que contribuíram para o acidente. O que foi analisado pelo Cenipa? Caixa preta da aeronave que caiu em Vinhedo (SP). Divulgação/FAB Ao longo da investigação, o órgão fez dezenas de perícias para reconstruir o voo e entender a sequência de eventos que levou à queda da aeronave. ➡️ Entre os principais trabalhos realizados estão: análise das duas caixas-pretas (gravador de voz da cabine e gravador de dados de voo); reconstrução completa do voo, incluindo comandos feitos pelos pilotos e alertas emitidos pela aeronave; exames nos motores e nos sistemas de degelo e de proteção contra estol; análise das condições meteorológicas registradas no dia do acidente; entrevistas com pilotos, mecânicos, despachantes e familiares dos tripulantes; estudo de mais de 15 mil voos realizados por aeronaves da mesma frota da companhia; testes em simuladores e um voo experimental com outro ATR 72-500; análise de registros de manutenção, certificados médicos dos pilotos e outros documentos técnicos. Segundo o Cenipa, também foram analisados equipamentos responsáveis pelo controle de diferentes sistemas da aeronave e até as lâmpadas dos painéis do avião para verificar quais estavam acesas no momento da queda. Relembre o acidente Escombros de avião em Vinhedo (SP) neste sábado, dia 10 de agosto de 2024 Nelson Almeida/AFP O acidente aconteceu em 9 de agosto de 2024. O ATR 72-500, matrícula PS-VPB, fazia o voo entre Cascavel (PR) e o Aeroporto Internacional de Guarulhos (SP) quando caiu no quintal de uma casa em um condomínio de Vinhedo (SP). As 62 pessoas a bordo, incluindo 58 passageiros e quatro tripulantes, morreram. Nenhum morador da residência atingida ficou ferido. Foi o acidente mais grave da aviação brasileira desde o desastre com o voo da TAM, em 2007. O que diz a Voepass A queda do voo 2283, em 9 de agosto de 2024, foi o episódio mais difícil da história da VOEPASS. Desde o momento do acidente, a empresa esteve solidária às famílias das vítimas, compartilhando uma dor que permanece presente em sua memória. Em mais de 30 anos de operações na aviação brasileira, a companhia jamais havia enfrentado uma situação como essa. Ao longo de três décadas, sempre adotou procedimentos sérios de segurança, capacitação e orientação de tripulação. A atuação da empresa sempre esteve pautada em padrões de segurança internacionais, contando inclusive com a certificação IOSA desde 2012, um requisito de excelência operacional emitido apenas para empresas auditadas IATA. A tripulação do voo 2283 era experiente, capacitada e devidamente certificada, acumulando mais de 5.000 horas de voo e com treinamentos técnicos e acompanhamentos de saúde rigorosamente atualizados, sem qualquer registro prévio ou fator que impedisse sua atuação. Desde o início das apurações, a VOEPASS atua de forma transparente junto ao Cenipa e às autoridades públicas e segue à disposição de todas as instituições e agentes envolvidos para colaborar com o que for necessário. VÍDEOS: tudo sobre Campinas e região Veja mais notícias sobre a região no g1 Campinas