Acidente da Voepass: 10 perguntas que o relatório final do Cenipa deve esclarecer

Acidente da Voepass: 10 perguntas que o relatório final do Cenipa deve esclarecer Quase dois anos depois do maior acidente da aviação brasileira desde 2007, ...

Acidente da Voepass: 10 perguntas que o relatório final do Cenipa deve esclarecer
Acidente da Voepass: 10 perguntas que o relatório final do Cenipa deve esclarecer (Foto: Reprodução)

Acidente da Voepass: 10 perguntas que o relatório final do Cenipa deve esclarecer Quase dois anos depois do maior acidente da aviação brasileira desde 2007, o Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) divulga, nesta quinta-feira (23), o relatório final sobre a queda do voo 2283 da Voepass, que matou 62 pessoas em Vinhedo (SP). O documento é aguardado porque vai trazer, pela primeira vez, a conclusão do Cenipa sobre os fatores que contribuíram para o acidente. A expectativa é que ele também apresente recomendações para evitar novas tragédias. 🔴 O g1 transmitirá ao vivo a apresentação do relatório final e acompanhará, em tempo real, as conclusões da coletiva do Cenipa. Assista aqui. ➡️E para entender quais dúvidas relacionadas à queda o relatório final deve esclarecer, o g1 ouviu especialistas em segurança aérea e separou 10 perguntas essenciais. Confira abaixo: Qual foi o papel do gelo na queda? O sistema de degelo funcionou corretamente? Luzes e avisos sonoros estavam funcionando normalmente? Houve comunicação sobre problema no sistema de degelo durante o voo? Antes do avião decolar, houve comunicação sobre falhas na aeronave? Piloto e copiloto agiram conforme os protocolos para a situação daquele voo? Houve falha na fiscalização pela Anac? O acidente revelou alguma necessidade de melhoria na fabricação do ATR 72-500? Houve negligência por parte da Voepass? Que lições a aviação tira do acidente para melhorar a segurança do transporte aéreo? Duas caixas pretas do ATR-72 da Voepass, que caiu em Vinhedo, estão em poder da equipe do Cenipa para investigação sobre o acidente. Reprodução/Jornal Nacional Um dos especialistas em segurança aérea explicou que, após o Cenipa identificar todos os fatos, os investigadores indicam quais deles, se removidos, teriam evitado ou atenuado as consequências do acidente. "São os chamados fatores contribuintes. Um acidente pode ter diversos", explicou o especialista, que pediu para não ser identificado. A investigação do Cenipa tem caráter exclusivamente preventivo. Isso significa que o relatório não aponta culpados nem atribui responsabilidades civis ou criminais. A apuração sobre possíveis crimes é conduzida separadamente pela Polícia Federal (PF). Desde o acidente, os investigadores: analisaram as caixas-pretas da aeronave; examinaram motores, sistemas e registros de manutenção; estudaram as condições meteorológicas; realizaram testes em simuladores; fizeram um voo experimental com outro ATR 72-500; e ouviram pilotos, mecânicos, despachantes e outros profissionais envolvidos na operação. Qual foi o papel do gelo na queda? As imagens registradas por moradores mostram o ATR 72-500 perdendo sustentação, entrando em parafuso e caindo. Desde os primeiros dias após o acidente, a formação de gelo passou a ser uma das principais linhas de investigação. Pouco depois da tragédia, uma análise do Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites, da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), indicou que a aeronave voou entre oito e dez minutos em uma área com condições de gelo severo. Segundo o manual da fabricante ATR, esse é um cenário de emergência, porque o gelo pode se acumular mais rápido do que o sistema de proteção consegue remover, comprometendo a sustentação e o controle da aeronave. O sistema de degelo funcionou corretamente? Os dados da caixa-preta mostram que o sistema de degelo do avião foi acionado três vezes durante o voo. Ouvido pelo g1 há um ano, o diretor do Instituto Nacional de Criminalística (INC), Carlos Eduardo Palhares Machado, afirmou que há indícios de que o sistema pode não ter funcionado corretamente. "Eles estarem voando em uma altitude com gelo, em condição de gelo severo, terem acionado o sistema por três vezes e, muito provavelmente, aquele dispositivo não ter funcionado, isso é muito relevante do ponto de vista do que causou, ou do que pode ter causado, o acidente", disse Palhares. Aviões comerciais contam com sistema antigelo, que infla e descarta acúmulo de gelo nas asas Reprodução/TV Globo Luzes e avisos sonoros funcionaram normalmente? Além de o sistema de degelo ter sido acionado três vezes durante o voo, a cabine teria registrado alertas de perda de velocidade e de redução do desempenho da aeronave. Em alguns momentos, esses alertas não foram acompanhados pelo acionamento do sistema de degelo, mas ainda não se sabe o porquê. Houve comunicação sobre problema no sistema de degelo durante o voo? Uma das dúvidas é se o piloto e o copiloto avisaram a companhia ou o controle de tráfego aéreo sobre uma possível falha no sistema de degelo durante o voo. As comunicações com o controle de tráfego aéreo indicam que isso não aconteceu. Mesmo quando o painel apontava um alerta de gravidade nível dois, em uma escala que vai até três, o piloto chegou a aceitar aguardar outro avião passar antes de iniciar a descida. Pouco antes de a aeronave perder o controle, o copiloto comentou: "bastante gelo". Imagem feita por drone mostra trabalho das equipes de emergência em local da queda do avião da Voepass em Vinhedo (SP), em 10 de agosto de 2024. Carla Carniel/ Reuters Houve comunicação sobre problema no sistema de degelo antes do voo? Segundo James Waterhouse, professor do Departamento de Engenharia Aeronáutica da Universidade de São Paulo (USP), uma das dúvidas é se a tripulação já sabia de problemas no sistema de degelo antes da decolagem, já que não havia registro no diário técnico de bordo (TLB). "O que se cogita é que existiam problemas, mas que os pilotos reportavam verbalmente aos mecânicos para evitar que fosse para o livro de bordo. Uma vez no livro de bordo, é obrigatória a correção ou o avião não poderia ser despachado num dia de prognóstico de formação de gelo". Em agosto de 2025, o g1 revelou o relato de um ex-funcionário da Voepass segundo o qual um piloto avisou, verbalmente, horas antes do acidente, que o sistema de degelo havia apresentado falhas durante um voo anterior. Piloto e copiloto agiram conforme os protocolos para a situação daquele voo? Segundo especialistas ouvidos pelo g1, diante do acúmulo de gelo e da perda de velocidade, piloto e copiloto devem tomar medidas como aumentar a potência dos motores, ganhar velocidade e sair da área de formação de gelo. "A velocidade do avião deve ser aumentada. Existe uma margem, inclusive, para isso. Uma margem grande de aumento de velocidade quando você encontra gelo. O acidente todo ocorreu porque eles não respeitaram essas margens de aumento de velocidade", disse James. Destroços de avião em Vinhedo Miguel Schincariol/AFP Houve falha na fiscalização pela Anac? Especialistas ouvidos pelo g1 afirmam que o relatório também deve esclarecer se houve falhas na atuação da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), responsável por fiscalizar as condições das aeronaves de companhias aéreas. Em agosto de 2025, uma comissão externa da Câmara dos Deputados, criada para acompanhar as investigações do acidente, aprovou um relatório que classificou a atuação da Anac como "hesitante" e concluiu que a agência também teve participação na tragédia. "O fato é que a empresa foi fiscalizada e considerada 'ok', digamos assim. Tanto é que continuou operando e o acidente ocorreu. Então, é interessante entender essa relação. Por que isso aconteceu?", questionou James. O acidente revelou alguma necessidade de melhoria na fabricação do ATR 72-500? Além de recomendações para as operações da Voepass e para a fiscalização da Anac, o relatório final também pode apontar a necessidade de mudanças no ATR 72-500, caso conclua que o sistema de degelo teve relação com o acidente. "Isso pode levar o fabricante a fazer novas melhorias, porque o sistema de degelo do ATR já foi aperfeiçoado. Antes ele era ainda pior. Os procedimentos para voos em condições de gelo também já foram revisados. Será que não é necessária uma segunda revisão?", ponderou James. Houve negligência por parte da Voepass? Avião da Voepass na pista do Aeroporto Leite Lopes, em Ribeirão Preto (SP) Marcelo Moraes/EPTV Outro ponto que o relatório pode esclarecer é a situação da frota da Voepass. A comissão externa da Câmara dos Deputados apontou problemas de manutenção na companhia e citou a prática conhecida como "canibalização", que consiste no reaproveitamento de peças de uma aeronave para consertar outra. Além disso, o documento deve ajudar a esclarecer se o fato de a empresa autorizar que uma aeronave decole após relatos de possíveis falhas no sistema de degelo - feitos verbalmente por um piloto horas antes do acidente, segundo um ex-funcionário ouvido pelo g1 - contribuiu para a queda. Que lições a aviação tira do acidente para melhorar a segurança do transporte aéreo? O relatório do Cenipa tem caráter exclusivamente preventivo e não deverá apontar culpados. O objetivo é identificar os fatores que contribuíram para o acidente e fazer recomendações para evitar que tragédias semelhantes aconteçam novamente. Na prática, isso significa que o documento pode indicar mudanças para tornar o transporte aéreo mais seguro, desde melhorias na aeronave até novos protocolos de operação e de fiscalização. Relembre o acidente Tragédia da Voepass: vídeo mostra como foi acidente de avião em Vinhedo O voo 2283 da Voepass caiu na tarde de 9 de agosto de 2024 em um condomínio de Vinhedo (SP), durante o trajeto entre Cascavel (PR) e Guarulhos (SP). As 62 pessoas a bordo, sendo 58 passageiros e quatro tripulantes, morreram. Foi o acidente aéreo mais grave do Brasil desde o desastre com o voo da TAM, em 2007. Logo após a tragédia, duas investigações foram abertas. O Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) passou a apurar os fatores que contribuíram para a queda e indicar medidas para evitar novos acidentes. Já a Polícia Federal iniciou um inquérito para apurar se houve crime e produzir um laudo próprio sobre o caso, já que o relatório do Cenipa não pode ser usado para responsabilização criminal. Um mês depois, o Cenipa divulgou o relatório preliminar da investigação. O documento confirmou que a aeronave enfrentou condições severas de formação de gelo e registrou que a tripulação relatou uma possível falha no sistema antigelo durante o voo. Também mostrou que o sistema foi acionado e desligado várias vezes ao longo da viagem, mas sem concluir se isso ocorreu por ação dos pilotos ou por outro motivo. O relatório, porém, não apontou a causa do acidente. Enquanto as investigações avançavam, a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) suspendeu as operações da Voepass, em março de 2025. Três meses depois, cassou o Certificado de Operador Aéreo (COA) da empresa, impedindo a companhia de operar voos comerciais. Na semana em que a tragédia completou um ano, o g1 publicou reportagens exclusivas sobre o caso. Uma delas revelou o relato de um ex-funcionário da Voepass de que um piloto havia informado verbalmente, horas antes do acidente, falhas no sistema antigelo durante um voo anterior, mas que o problema não foi registrado no diário técnico da aeronave. O g1 também publicou os áudios das conversas entre piloto e copiloto nos minutos que antecederam a queda. Em 30 de junho de 2026, familiares das vítimas tiveram acesso pela primeira vez às transcrições das conversas gravadas na cabine durante uma reunião com a Polícia Federal. Às vésperas de o acidente completar dois anos, a expectativa é pela divulgação do relatório final do Cenipa. O documento deve apresentar as conclusões da investigação técnica sobre a queda e indicar recomendações para aumentar a segurança da aviação e evitar novas tragédias. O que diz a Voepass Em nota enviada ao g1 na segunda-feira (20), a Voepass informou que vai aguardar a divulgação do relatório final antes de fazer um novo pronunciamento. Logo após a tragédia, a companhia afirmou que a queda do voo 2283 foi "o episódio mais difícil" de sua história e disse que seguiria prestando apoio psicológico às famílias das vítimas. Na ocasião, também declarou que colaborava com as investigações desde o início, reafirmou que sua frota "sempre esteve aeronavegável e apta a realizar voos", conforme os padrões internacionais, e sustentou que apenas o relatório final do Cenipa poderia apontar, de forma conclusiva, as causas do acidente. VÍDEOS: tudo sobre Campinas e região Veja mais notícias sobre a região no g1 Campinas